22/02/2024 às 11h30min - Atualizada em 24/02/2024 às 00h06min

Ex-reciclador de latas na infância se torna fundador de empresa avaliada em R$40 milhões

Da reciclagem à prosperidade: conheça a jornada do fundador da VFP Hospital Veterinário

Caique Eudardo Costa
Imagem: Arquivo

Desde criança João Marcos Rios, 27, já conhecia o caminho o qual gostaria de trilhar: o do empreendedorismo. Ainda cedo, entendeu que seria necessária muita movimentação de sua parte para conseguir mudar o contexto econômico no qual estava inserido. De família classe média baixa oriunda de Guaxupé, pequena cidade localizada ao sul de Minas Gerais, João é filho de uma mãe professora e um pai médico veterinário. 

 

“Eu acredito que os maiores obstáculos para quem sai do zero é entender como o mundo funciona. Parece abstrato, mas eu sempre falo para as pessoas que para ganharmos um jogo precisamos primeiro saber as regras. Na vida, funciona da mesma maneira. Para quem sai do zero com poucas influências sobre finanças, conhecimentos jurídicos, sem bons contatos, conhecendo poucas culturas diferentes, acaba por ser um pouco mais desafiador, pois nossa visão de mundo é restrita para entregar grandes resultados para a sociedade”, João reflete. 

 

O patriarca, aliás, o observava com olhar atento: “ele me contou que desde pequeno eu já apresentava aptidão para os negócios, para comercializar”. Tudo começou efetivamente aos dez anos, quando Rios começou a guardar o dinheiro que recebia de presente em seus aniversários. “Ganhava R$ 5,00 ali, R$ 10,00 aqui. Eu juntava esse dinheiro, mas não era o suficiente para reunir um bom montante.”

 

Mas logo encontrou a solução para o problema. Na mesma época, foi informado que juntar latas de bebidas era uma boa forma de conseguir aumentar as suas economias. “Eu colecionava latas, retirava os lacres e os vendia separadamente, pois eram mais caros. Eu vendia a R$ 3 o quilo. Naquele tempo, era bastante dinheiro. Depois de dois meses juntando, enchi um saco inteiro; juntando tudo, dava R$ 50. Passava mais dois meses, mais R$ 50.”

 

Foi desta forma, de três em três reais, que João conheceu não apenas o valor do dinheiro, mas também aprendeu a valorizá-lo. “Nesse meio tempo, eu entendi outra possibilidade de ganhar dinheiro, que eram os bezerros. Meu pai sempre esteve nas fazendas e aprendi  a comercializar”. Com o dinheiro que tinha, comprou uma bezerra. Aliada  à compra do animal, passou a adquirir e vender filhotes de galinha. “Esperávamos virar frango para vender para os restaurantes. São as três coisas que eu fiz na minha infância.”


 

Rios conta que sempre habitou em si o prazer por negociar e discutir para chegar a algum resultado. Mas também era consciente que precisava estudar e trabalhar para melhorar a condição financeira. “Sempre fui muito sonhador. Eu via algum prédio sendo construído e pensava que conseguiria fazer um igual; via alguém indo trabalhar nos Estados Unidos e pensava que conseguiria também; presenciava algum empresário batendo a marca de 1000 colaboradores e pensava que poderia fazer também. Tais coisas sempre me motivaram.”

 

Anos mais tarde, para  iniciar os estudos na faculdade, os bezerros foram vendidos. Em idade mais madura, aos 17 anos, todo o esforço de João havia se materializado na quantia de R$ 50 mil. Com dinheiro e uma ideia, ele decidiu investir na compra de café. “O preço estava muito baixo. Aí eu entendi que por aquele valor, o café não abaixaria mais. Falei com algumas pessoas que o cultivavam na cidade e comprei por volta de 90 sacas de café. Vendi 80% mais caro e consegui dobrar o meu patrimônio.”

 

Após iniciada a trajetória no investimento, João decidiu que era hora de expandir os horizontes. “Eu precisei me tornar humilde o bastante para entender que precisava aprender com as pessoas em todas as oportunidades que eu conseguisse, além de abrir a  minha mente para enxergar onde tinha oportunidade para eu entregar valor para a socidade”. Depois de comprar um apartamento, partiu em direção à Phoenix, no Arizona, nos Estados Unidos, em 2016. Para isso, foi preciso usar dinheiro emprestado, visto que as economias haviam sido utilizadas na compra do imóvel. Foram meses de intercâmbio cultural que o ajudaram a entender a maneira com a qual os americanos trabalham. 

 

E enquanto esteve no território do Arizona, João vivenciou uma experiência que, para si, foi uma divisora de águas que reafirmou ainda mais qual era o modo correto de pensar e agir. Acompanhado de um amigo, João observou o comportamento de um homem que ocupava o cargo de gerente em determinado estabelecimento. “Ele era muito rápido. Lavava pratos e demitia, caso necessário. O gerente ganhava por hora e era extremamente ágil”. Impressionado pela boa performance do profissional, virou-se para o colega brasileiro ao seu lado. “Você está fazendo corpo mole, vai ao banheiro seis vezes por dia”. Prontamente, obteve a resposta do amigo: “estou sendo pago por hora. Se eu trabalhar muito, vou ser pago a mesma quantia. Você acha que eu vou fazer isso?”. Neste momento, para João, tornou-se claro qual destes era o mindset de um vencedor. 

 

“Eu acredito que aquilo que diferencia uma pessoa empreendedora em relação às outras é entender que nós temos a capacidade de melhorar o ecossistema em que vivemos. Atrelado a isso, acredito que a baixa aversão ao risco ajuda muito a tentar coisas novas a todo tempo. Esses dois pontos, somados à bastante energia, fazem o empreendedor.”

 

Mas João deixa claro que  é preciso muito mais que uma forma de pensar empreendedora. É preciso agir e saber o que quer. “Por volta dos 20 anos, entendi que a única possibilidade que eu tinha para melhorar drasticamente de vida era empreender e criar um negócio de sucesso. A partir do momento que entendi isso, comecei a tirar todas as coisas que me distraíam  deste caminho e foquei nas atitudes que me ajudariam a chegar no objetivo.”

 

Como parte deste objetivo, há cinco anos João traçou uma estratégia. As redes sociais do jovem empresário exibem apenas jornais, revistas e conteúdos relacionados a empresários de sucesso. 

 

Na Dakota do Norte, passou quase dois anos. Foi no estado do centro-oeste do país, trabalhando em uma fazenda, que conseguiu juntar dinheiro o suficiente para comprar o segundo apartamento. “Eu conseguia guardar 95% do meu salário e mandava o dinheiro para o Brasil. Trabalhando lá, eu aprendi com as pessoas que eu sou capaz de fazer muita coisa. O ser humano é moldado a partir de muitas coisas que acontecem no decorrer da vida.”

 

Devidamente moldado pelas experiências vividas até então, João retorna ao Brasil em 2019, dono de um capital de R$ 260 mil. Este foi o valor necessário para que, em 2020, abrisse a primeira unidade do hospital veterinário VFP, sigla para Vets for Pets (veterinários para pets), em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A clínica é resultado da parceria entre Rios e Alan, sócio que conheceu na época da faculdade de medicina veterinária – inspirado pelo pai, João graduou-se na mesma profissão que assistia o patriarca exercer. 

 

Anos antes de tornarem-se sócios, entre os anos de 2014 e 2015, enquanto João exercia a faculdade, Alan, que havia concluído a graduação, era dono de sua própria clínica. “Tínhamos uma sinergia muito grande para falar de empreendedorismo. Eu fui seguindo a faculdade, continuamos a conversar e tentávamos fazer negócio juntos”. Embora a colaboração não tenha acontecido naquele momento, os dois estavam destinados a empreender juntos. “Depois de um tempo, o Alan falou que iria sair do negócio e disse para pegarmos o dinheiro que eu tinha para abrir um outro empreendimento. Ele iria vender a clínica dele e me pagaria metade.”

 

O negócio erguido por ambos toma forma após Alan compartilhar uma insatisfação de seus anos anteriores. Na antiga clínica, o sócio sentia grande dificuldade para receber encaminhamentos: “não gostam de encaminhar porque nós fazemos todo tipo de atendimento. Eu quero fazer um um hospital que seja de apoio ao médico veterinário. Quero fazer um plano de saúde”. Satisfeito com a ideia, João concordou. O negócio que ambos sonhavam em ter estava, finalmente, concretizando-se. Em julho de 2020, inauguraram a primeira unidade da VFP, com 260 metros quadrados. Pouco mais tarde, o espaço torna-se pequeno demais para a demanda que passariam a suprir. 

 

Durante a gestão desta unidade, João e Alan descobriram como o empreendimento iria funcionar naquele primeiro momento. O plano de saúde idealizado não pôde ser implementado devido à falta de capital que os assolou naquele instante. Esta foi mais uma pequena dificuldade que logo encontrou solução. “Fomos apenas no negócio B2C. Trabalhamos o cliente final por meio do médico veterinário parceiro. Nós fomos até o oncologista e falamos para ele: ‘quando precisar de hospital, pode utilizar o nosso’. Isto se repete para todos os especialistas e clínicos.”

 

Para ser o que é hoje e operar do modo atual, a VFP trilhou um longo caminho. Em julho de 2020, sem equipamentos como o raio-x e o ultrassom, funcionavam como uma clínica veterinária com um modelo de negócio focado no médico veterinário. O atendimento contempla apenas clientes encaminhados. Segundo João, esse é um dos diferenciais do empreendimento. 

 

Outro elemento chave para o funcionamento da clínica é o sistema utilizado para o atendimento de clientes. “Quando chegava um cliente de emergência no hospital, perguntávamos sobre o veterinário que o atendia. Então, entrávamos em contato com o veterinário responsável, que fazia essa ponte. Foi um projeto de negócio diferente desde o começo.”

 

Incrementaram, também, o VFP educação – uma parte educativa que realizam para os parceiros internos. “Colocamos ambulatórios gratuitos dentro do hospital. Víamos que o médico queria encaminhar para o hospital, mas também queria fazer uma visita intra hospitalar, visitar o paciente, atendê-lo na clínica e fazer o encaminhamento para uma cirurgia. Quando conseguimos mais ambulatórios, liberamos o atendimento dentro do hospital.”

 

O cuidado para apenas aceitar encaminhamentos também vai de encontro com o compromisso de não criar concorrência com os veterinários parceiros. “A gente faz com que o médico tenha mais dinheiro. Ele usa o premium sem precisar investir no premium. Tiramos o custo fixo e permitimos que o profissional atenda no nosso ambulatório.”

 

Com o sistema estabelecido, chegou o momento de iniciar o empreendimento. O começo foi árduo. Com o funcionamento de 24 horas e dinheiro para contratar apenas cinco funcionários, João e Alan operavam em múltiplas funções. “Eu era o estoquista, o responsável pela limpeza, fazia o pós-venda, o marketing… O Alan era todos os médicos veterinários”. Mas o retorno veio mais rápido que o esperado. Após dois meses, foi possível a contratação de mais funcionários. “Fizemos um business plan para faturar R$ 100 mil depois de um ano – no terceiro mês, já faturávamos isso.”

 

Em 2020, durante esse período, embora vissem o negócio crescer rapidamente, não tinham para onde expandir. Então para que a subida continuasse cada vez mais alta, incorporaram um prédio de 500 metros quadrados. 

 

Desde então, a VFP atua enquanto aliada ao médico veterinário parceiro. “Não exigimos dinheiro do veterinário, queremos fazer com que o ecossistema seja mais forte. A gente acredita que é possível crescer com parceria. Buscamos a consolidação, mas não precisamos buscá-la ao chegar e esmagar. A nossa parte é o hospital; a parte intelectual, de rotina, é do médico. Nisso, o paciente é o mais beneficiado.”

 

Hospital referência em medicina veterinária intensiva, a VFP oferece equipamentos de alta tecnologia com o que tem mais de avançado na medicina. É dona de uma comunicação eficiente com médicos veterinários parceiros através de sistema próprio de gestão de encaminhamentos; possui, também, uma estrutura organizacional equiparada aos melhores hospitais do mundo. Somado a tudo isso, há auditorias e controle de qualidade de assistência, limpeza e organização realizadas periodicamente. 

 

Com esse funcionamento, o futuro da empresa surge cada vez mais promissor. Hoje, somam mais de 70 colaboradores; metade são prestadores de serviço (PJ) e a outra parcela corresponde ao CLT. Em menos de dois anos, a empresa já contava com uma equipe de mais de 30 funcionários. Em junho de 2023, a unidade matriz de Ribeirão Preto passou a ter 40 colaboradores.

 

E o futuro promete o crescimento contínuo desses números. Em 5 de fevereiro, acontece a inauguração da unidade de Araraquara, que já contabiliza 12 colaboradores. “O público entende como funciona o nosso negócio. Estão felizes. Eles querem um atendimento de qualidade. Quando construirmos a 5° unidade, faremos o nosso próprio plano de saúde para tentar democratizar o serviço. Atualmente, estamos indo para a 4° unidade.”

 

É construído um prédio em Uberlândia e há uma VFP prevista para existir em São José dos Campos. Atualmente, a empresa está avaliada em R$ 40 milhões. Contudo, este valor pode chegar aos R$ 150 milhões, explica João. “No momento, procuramos uma rodada de investimento avaliando a empresa em R$ 120 a R$ 150 milhões de reais. Vamos captar uns R$15 milhões para fazer mais cinco unidades. É o que buscamos, esse é o futuro.”



 
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